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FLOR DA ROSA - Escultura de João Cutileiro
até 5 de Outubro de 2009
Em 1982, Sílvia Chicó, num ensaio sobre João Cutileiro, falava na sua, até então, escassa obra de estatuária pois o escultor, apesar de vir sendo cada vez mais reconhecido internacionalmente, não tem grandes encomendas públicas, nem condições de trabalho outras senão as que ele próprio conseguiu criar(...) e, relativamente ao futuro questionava se o país merece um artista como Cutileiro e se o mesmo artista terá as condições de trabalho que lhe são devidas...
Quase trinta anos volvidos, o artista escolheu o país e as condições de trabalho continuam a ser as que criou... A estatuária, contudo, é abundante e do "estaleiro" de João Cutileiro saíram algumas das mais significativas obras de arte pública em Portugal de que o público pôde ter uma visão de conjunto com a exposição "Pedras na Praça" (Silves 2007 - itenerante) onde foi reunido um número importante de maquetas, desde o D. Sebastião (Lagos, 1973), passando pelo Monumento ao 25 de Abril (Lisboa,1997) às intervenções para a Expo 98 ou ao Grande Barco no Centro Cultural de Macau(1999).
A exposição da Flor da Rosa acontece agora um pouco como com a relação do artista com o país, o espaço chamava-o e o coração escolheu-o. Depois tudo pareceu tão natural - a selecção das peças e a sua adaptação ao espaço, ou as ligações iconográficas e estéticas ao lugar.
Não tivemos qualquer intenção de produzir uma exposição de carácter retrospectivo mas, na verdade, acabámos por seleccionar peças que abrangem alguns dos temas de eleição do trabalho de João Cutileiro. Será o "espírito do lugar" da Flor da Rosa; desde logo o topónimo, invocador da sede da Ordem Hospitalária, a Ilha de Rodes, ao tempo conhecida como Ilha das Rosas e a rosa que se repete no símbolo heráldico dos cavaleiros de S. João; o aspecto inexpugnável da arquitectura religiosa e militar; os apontamentos da elegância clássica da renascença quando ao Mosteiro se junta um Paço; a imponência da igreja agora dessacralizada e vazia, onde se guarda apenas a memória material do túmulo de um monge/guerreiro...
A força do espaço e a presença da pedra terão animado João Cutileiro aquando de uma recente visita ao Mosteiro, recuperado para a visita pública após mais de dez anos de desigual convívio com uma unidade hoteleira das Pousadas de Portugal, que desde 1995 ocupa parte das antigas instalações monásticas.
Confrontados com a imponência do espaço era praticamente evidente a relação com as pedras de Cutileiro. As primeiras ideias remeteram para os guerreiros, tema trabalhado intensamente nos anos de 1960 e 70, em relação/reacção à guerra colonial que então marcava fortemente a vida nacional - aqui os guerreiros serão guardiães do lugar, estes homem/máquina assemblados e paralisados no tempo confrontam a nossa obsessão por fixar um monumento no tempo e numa memória.

Esta Flor da Rosa, do universo temático das Flores, Frutos e Pássaros, pertence a um conjunto especialmente executado para uma exposição de homenagem ao fotógrafo Robert Mapplethorpe e ocupa aqui um lugar chave na ténue linha entre passado e presente.
As árvores pediram para entrar e parece fundirem-se com as mulheres que aqui se recolheram, delicadas, despudoradas e frágeis. Tomam conta da grande nave onde outrora homens de guerra oraram a uma outra virgem.
Ana Cristina Pais







