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Exposição Temporária

Inaugurada no passado dia 10 de Abril, pela Directora Regional de Cultura do Alentejo e o Presidente da Câmara Municipal do Crato, a Exposição Rinoceronte Objectos e Pintura poderá ser visitada, no Mosteiro de Santa Maria da Flor da Rosa, no Crato, até ao dia 31 de Julho de 2010.

Paris 1969
O rinoceronte repousava. Silencioso, enchia o espaço que uma gravura ocupava numa parede, na casa que o pintor habitava.
Já não era o original, esse que o Dürer tinha gravado com base nas descrições e prováveis registos gráficos, realizados a partir do animal oferecido ao Rei D. Manuel pelo Sultão de Cambaia e que teria enchido de espanto, não somente os portugueses do século XVI, mas igualmente os povos da Europa central que, através das feitorias detidas pelos portugueses na Flandres, dele tiveram conhecimento.
Não era igualmente o que, em breve, se viria a tornar.
Nesse ano de 1969, o pintor Renato Cruz tentava o seu ingresso na Escola Superior de Artes Decorativas de paris. A candidatura obrigava à entrega, para apreciação, de um dossier, forçosamente anónimo.
Na procura do pseudónimo necessário à identificação da sua candidatura, deu-se o encontro entre o Renato Cruz e o Rinoceronte. É neste contexto que o paquiderme irá hibernar, após a sua fugaz aparição, para reaparecer mais tarde, a partir dos anos oitenta e já em Portugal, saído da letargia em que, até então, se encontrara.
Esta Nova etapa irá ficar associada à criação de objectos realizados com recurso a uma gama diferenciada de materiais reciclados, com predomínio para a pasta de papel.

O desafio criativo que o Rinoceronte coloca a si próprio é o da exploração exaustiva das possibilidades plásticas, formais e estruturais oferecidas pelos materiais que vai recolhendo do seu quotidiano. É assim que, na sua obra, é visível o encontro entre a simplicidade formal, quase artesanal. E a cultura plástica, social, histórica e literária que a percorre.

Nesta exposição, agora patente na Flor da Rosa, o público terá, a oportunidade de desvendar o universo poético, mas igualmente crítico e mordaz, característico do entendimento estético do mondo peculiar em que este Rinoceronte se move.

Manuel Gil


* * * *

Rinoceronte precocemente resolveu escolher como seu século não este, o de vinte e um, o dos nossos dias, mas outro, o décimo segundo dos poetas árabes de Cacela e de outras taifas. Desta sorte, corria todas as manhãs com grande rapidez quando ia para a escola, ali para os lados de Vila Real de Santo António. O chifre, o seu, era Andaluz e jovem e impunha-se por ser mais poético que curvo.
Um detalhe estimava ao fazer esse caminho: correr correr correr sem outros inimigos e por entre as alfarrobeiras as laranjeiras as figueiras e os limoeiros. E logo limoeiros lunares, expressão tão sentida que um dia ouvira naquele lugar do mundo entre a serra e o mar!
Todavia, diziam-lhe que tinha de ser mais forte mais selvagem mais encorpado senão havia quem desejasse a sua pele para fazer coletes ou, voltando ao chifre estimado, quem o cobiçasse para desfazer em pó na indústria farmacêutica.
Rinoceronte não gostou do que ouvia e pensou em partir. Lisboa, Paris, ou Viena eram alguns dos sítios que sonhou. À partida, Viena onde nunca estivera mas tão bem conhecia por ouvir frequentemente o nocturno de Schubert, estava excluída. Paris, bem, em Paris já não havia pedras sadias como as que ainda há no Alentejo. Restou Lisboa e assim escolheu.
Faltava, porém, o engenho para dar o salto. Era um dos Natais do fim da década de cinquenta e quando na escola lhe exigiram uma redacção sobre essa data festiva, Rinoceronte esfregou as patas e contentamento tornou a coçar com alegria o seu chifre mais poético que curvo e escreveu sobre o nascimento de Jesus da Galileia confundindo deliberadamente Jesus da Galileia com Jesus da Reboleira, Jesus Nazareno com Jesus Baiano ou ainda Jesus da Terra-Nova com Jesus-Norte-Sul.
Rinoceronte acertara em cheio! As seis ou sete linhas deixadas na leve folha amarelada obrigaram-no a deixar os campos em volta de Castro Marim e rumou a Lisboa. Hoje, Rinoceronte vive na Rua da Madalena, eu tenho o hábito de ir roubar arte a sua casa, e como Virginia Woolf um dia escreveu NADA EFECTIVAMENTE ACONTECE ATÉ TER SIDO ESCRITO...

Carlos Mota de Oliveira


Mais informação:
Direcção Regional de Cultura do Alentejo
T.: 266 769 450


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